Portugal está a converter-se numa selva onde a classe média e baixa, aquilo
que se sói designar por “cidadãos
comuns”, se está a transformar num enorme rebanho de gnus onde os predadores procuram diariamente a presa que os há de, mais que
sustentar, engordar a cada dia que passa.
E se a teoria da economia liberal defende que estas bestas ferozes se
auto-regulam através da competição entre si, criando deste modo algumas
oportunidades de sobrevivência para as presas, a
realidade mostra-se completamente diferente. Todos os predadores desta selva
imensa se puseram de acordo dividindo, de forma tão harmoniosa quanto secreta,
entre si o território de caça onde são reis e senhores, onde se
ditam ou ignoram as leis segundo as suas próprias conveniências já não ditadas pelas simplicidade frugal das suas necessidade, mas antes pelos mais
delirantes desejos e sonhos que lhes aprouve ter.
Para as grandes empresas e grupos financeiros que nos predam não há considerações morais ou éticas. O valor do lucro e os direitos de
propriedade, sejam eles justificados ou não, são os únicos parâmetros, as
únicas guias que tudo regem e que tudo justificam. O único fito é obter o
máximo possível no mínimo tempo possível, possuir hoje tanto quanto se possa
possuir, sem olhar aos danos sociais e económicos que isso possa causar. A
oportunidade do ganho fácil impera!
E desta forma assistimos todos impotentes ao lento definhar da manda que
somos todos nós, ao diminuir do seu número, vigor e capacidade de sobrevivência, perante a avidez cega dos nossos algozes que se recusam a aceitar que a
sua própria sobrevivência depende da sobrevivência das suas presas.
Esquecem-se de no chão salgado com as lágrimas e o suor das suas vítimas,
nada cresce, nada se renova. Esgotam-se ao esgotarem-nos, no embalo alucinatório da indiferença e desprezo pelo dia de amanhã. Para
este tipo de animais a satisfação imediata, crescente e
momentânea dos mais delirantes desejos é uma necessidade constante e corrosiva.
O suficiente é inexistente, só o tudo infinito satisfaz e sacia ainda que esse
limite seja por definição inalcançável e intangível.
Ao invés comportam-se como se o Universo pudesse estar perpetuamente cheio de novas manadas e novos territórios para serem
explorados quando os seus actuais terrenos de caça inevitavelmente se
esgotarem. Todos os dias ultrapassam, com uma indiferença chocante, todos
os limites das necessidades de sobrevivência e auto-preservação, numa
procura perpétua de mais despojos, de mais carcaças, na mira constante de
ganhos que acreditam poderem ser eternamente crescentes.
E é pois nesta selva civilizada, onde a ganância se senta no trono, que
estamos todos a tentar aprender a sobreviver ou, pelo menos, numa procura
constante da melhor forma de conseguirmos prolongar a nossa agonia um dia de
cada vez.
Duma forma consciente ou não, ainda que seja no mais fundo do nosso âmago,
todos sabemos isto. E a escolha que temos que fazer é tão simplesmente por
quanto tempo mais poderemos continuar a ignorar este sentir, a fingir acreditar
nos embalos doces das promessas dos que nos governam
em benefício próprio e das feras bestais que os acoitam e protegem conquanto possam
ser alavancas para o elevar dos seus interesses próprios, egoístas e loucos.
É pior que selva, Amigo Meu, nessa ainda havia reis, do Leão ao Tarzan! Naquele pântano em que vivemos já só vislumbro macacos (de imitação) e sanguessugas, sem desprimor para os símios e para os bicharocos que auxiliavam a Medicina de antanho.
ResponderEliminarAbraço
Meu caro amigo: agradeço-te imenso as tuas palavras mas, em minha defesa, faço-te ver que soubeste da criação do blog poucos minutos depois dele ter sido criado. Foi um impulso a que não consegui resistir, o ceder à tentação de ter um sítio, ainda que esconso, onde possa depositar esta revolta surda que me mói e aplacar esta frustrante sensação de impotência de que tantos padecem. E depois, sabes, é preciso começar por algum lado. Parafraseando, algo livremente, Edmund Burke "Para que o mal triunfe basta que os homens bons nada façam".
ResponderEliminarEste pretende ser o meu contributo, quiçá impotente e inútil, mas que creio devido.
P.S. - Acabei de me aperceber da ironia de citar aqui Edmund Burke, mas o que é bem dito é bem dito e merece memória!
E bem precisamos nós de ter onde desabafar nestes dias sombrios...
ResponderEliminarAb
Tiago
Ironia, por que razão?
ResponderEliminarSe é certo que Ele vinha do Liberalismo Whig e apoiou o processo da Independência Americana, foi aceso crítico da versão continental de hediondez acrescida que rebentou em França, donde foi trasladada para cá e que querem à viva força ressuscitar. Logo, é um Mestre a que se deve estar atento, contra neo-jacobinismos centralizadores, a face mais terrorista dos laissez-faire, laissez passer egoístas e indiferentes.
Abraço