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domingo, 16 de março de 2014
O manifesto dos 70
Finalmente consegui reservar algum tempo para ler o texto que tanta tinta tem feito correr nos últimos tempos e devo dizer que, ao contrário do que foi apregoado em muitos orgãos de comunicação social, quiçá por força do meu desconhecimento sobre o pantanal actual da vida política e financeira deste pobre país (em todos os sentidos), não consegui discernir nele nada que me fizesse desconfiar de interesses próprios escondidos, ou de utopias e desejos irrealizáveis à luz do que deve constar no núcleo de princípios dum projecto europeu capaz de preservar os interesses do Velho Continente entalado entre interesses adversos que residem quer a Ocidente quer a Oriente da Europa, esses sim, verdadeiras ameaças à sobrevivência das nações que constituem a União Europeia.
Poderá haver quem concorde, poderá haver quem discorde, mas que cada um decida por si apenas depois de ler primeiro o texto em causa e depois os argumentos bem fundamentados quer a favor quer contra o conteúdo do Manifesto, mesmo que tal implique um esforço para não nos deixarmos confinar à facilidade cómoda de opiniões e dizeres semi-digeridos com que cada vez mais as máquinas de propaganda partidárias (e não só) nos alimentam a obesidade gordurosa da inteligência. Fuja-se, acima de tudo, dos muitos textos que encontrei (custa-me dizer que uma grande maioria dos que encontrei em orgãos de comunicação social ditos especializados) onde mais do que analisar e se possível desmontar os argumentos apresentados, todo o discurso produzido se limita a um vilipendiar impune dos autores do texto e do seu conteúdo argumentativo classificando-os redutora e dogmaticamente de irrealizáveis e utópicos e ao denegrir feroz (e estou em crer que totalmente impune) da integridade moral dos seus signatários.
Por mim apenas encontrei argumentos que me parecerem eivados daquele bom-senso típico das donas-de-casa de outrora, adquirido pela experiência e pela formação, hoje em dia tão mal vista, em coisas similares às velhas aulas de Economia Caseira que acredito que, ao contrário do que muitos pseudo defensores da igualdade entre géneros apregoam, muito contribuiu para a melhoria das prosperidades familiares nas décadas de 50 e 60 do século XX. Quem sabe se, num verdadeiro exercício igualitário, essas aulas jamais tivessem sido eliminadas mas antes estendidas ao alunos do sexo masculino, não teríamos sido poupados a muitos dos descalabros económicos e sociais das décadas que se seguiram ?
terça-feira, 4 de março de 2014
O voto
O voto democrático é como o voto do
casamento!
Ao
votarmos estamos a dizer a outra pessoa que acreditamos nela, que confiamos na
sua honestidade, na sinceridade das intenções enunciadas e no seu empenho em
cumprir com o que prometeu sem olhar às dificuldades que isso acarrete ou, caso
venha a reconhecer que se enganou - seja por imaturidade, impreparação, ou
qualquer outra razão que queira alegar - e que com esse erro nos induziu na
expectativa de algo que não conseguirá concretizar, nos deixar a difícil
liberdade de exercer o direito último, extremo e absoluto de decidirmos se
queremos prosseguir com um silogismo cujas premissas e consequente conclusão
estão, logo à partida, comprometidos.
Tal como no casamento, quando votamos, mesmo que em branco, estamos a
dizer que acreditamos no sacramento de que ele é expressão, a conferir-lhe
legitimidade, a comprometer-nos a submeter os nossos interesses individuais e
liberdade de escolha ao superior interesse comum e a declarar a nossa crença em
que tal acto de abnegação será gerido com o cuidado e ponderação a que a nossa
prova de confiança obriga a outra parte.
Deveria ser assim! Por muito utópico que tal pareça ser a alguns ou a
muitos tem que ser assim! E assim não sendo mais vale não assumir tal
compromisso ao invés de darmos um débil “sim” em cuja veracidade e honestidade
nem nós próprios acreditamos. E se é certo de que nos moldes político e sociais
a honestidade desta negativa pode conduzir a uma relação ilícita e ditatorial
imposta pela parte mais forte que, escusado será dizer, raras vezes reside no
lado das massas anónimas, há que ponderar onde reside a maior virtude: se num
ser humano que voluntariamente cede a sua liberdade por medo e receio de que
doutra forma lha retirem através de actos violentos e impróprios duma sociedade
civilizada, ou se reside antes no ser humano que sem fraquezas de espírito
combate pelos princípios em que acredita e em consequência se vê reduzido a uma
escravatura forçada. Ao primeiro nenhum direito resta, ao segundo resta, pelo
menos, o direito perene da revolta, da não aceitação da situação a que foi
reduzido pela força.
Num filme considerado como uma obra menor na sua excelente carreira, a
personagem interpretada por Al Pacino defende um jovem que se recusava a ceder
os seus princípios através da denúncia de colegas faltosos, ainda que lhe propusessem
fazê-lo a troco de enormes benesses. E para sua defesa, argumentava o
ex-militar interpretado pelo famoso actor, que ao longo da sua vida tinha
chegado muitas vezes a encruzilhadas e que, em todas essas situações, sempre
tinha sabido qual era o caminho certo e qual era o caminho errado e, mau grado
tal discernimento e ao contrário do que fazia aquele jovem, sempre tinha
escolhido o caminho mais fácil ao invés de escolher o mais correcto.
Devemos todos decidir que caminho vamos escolher: se vamos continuar a
seguir o caminho fácil de fingirmos que acreditamos num sacramento democrático,
mesmo sabendo que vai ser desrespeitado, ou se devemos ter a força de superar
os nossos maiores receios e medos recusando-nos a conceder legitimidade a
outras pessoas que não aquelas que nos consigam suscitar a crença sincera e
confiante na sua honestidade.
Dentro de alguns dias vamos ter, de novo, eleições europeias. Todos nós
temos por isso ainda pelo menos alguns dias para pensar em tudo isto, para
decidirmos se vamos consagrar e legitimar a hipocrisia de tal cerimónia com a
nossa presença, ainda que na qualidade de simples e relutantes convidados, ou
se, pelo contrário e não obstante a insignificância da nossa recusa individual
(até porque bastam três votos válidos em dois partidos para que um deles possa,
nos termos idiossincráticos da nossa democracia, poder declarar uma vitória
estrondosa) vamos recusar o nosso assentimento tácito a um voto em que não
acreditamos na honestidade das intenções duma das partes, e fazê-lo sem nunca
perder de vista a ideia básica de que o nosso dever é aquele a uma consciência
impoluta nos obriga e não aquele que é ditado mais pelos interesses do que
pelas consciências e ditames alheios.
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