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domingo, 5 de março de 2017

Protesto


    Há uma amiga minha que diz que devemos protestar contra o que é injusto. Protestar sempre! Mesmo que saibamos que o nosso protesto não tem força, que é um simples fio de voz perdido no meio duma cascatata tronitruante doutras. É injusto? Proteste-se, proteste-se sempre!

    Argumentei com ela que era um esforço baldado, inútil. Um desperdício de forças que podiam ser usadas para outras coisas. Apresentei uma míriade de argumentos com a convicção tola de quem acha que tem a razão nas mãos.

   Mas sabem que mais ? Ela tem razão! Não há melhor uso para as nossas forças do que lutarmos pelo que é justo não só para nós como para todos os que nos rodeiam.

    Mesmo que a nossa voz não se consiga ouvir para além dum mísero par de passos pode ser que tenhamos a sorte de conseguirmos que chegue aos ouvidos certos, aos ouvidos de alguém com coragem suficiente para juntar a voz dele à nossa. E se isso acontecer pode ser que mais alguém como nós a oiça, que mais alguém, tão singelo como nós, tenha a coragem de nos bendizer com a ajuda da voz dele. E aí as nossas vozes ouvir-se-ão à distância de cinco passos, de mais três pessoas, de 10 passos, de 20 pessoas, numa cavalgada exponencial e imparável.

    E também pode ser que nada disso aconteça, mas só poderemos estar certos disso se tentarmos, se tivermos a coragem de tentar. Antes disso não temos o direito de dizer que é inúti, não temos o direito de baixar os braços e acima de tudo não temos o direito de tentar dissuadir os outros.

    A minha amiga, de quem discordo amiúde e que nunca se zanga comigo por isso, tem razão. As minhas desculpas sentidas!

sábado, 19 de novembro de 2016

Ad nauseam

   Sem prejuízo das preocupações que possa ter sobre este acontecimento, não deixo de ver como inacreditável (e até mesmo inaceitável) a quantidade de artigos de opinião que têm sido publicados nos últimos dias sobre a eleição inesperada de Donald Trump para a presidência dos EUA.

   Todas as agências noticiosas parecem preocupadas em justificá-la por mor de razões nacionalistas e protecionistas a que juntam q.b. as que se possam prender com insatisfações populares, numa demonstração gritante da sua relutância extrema em aceitarem a sua escabrosa falta de capacidade de previsão e análise no que a este assunto diz respeito.

   De tanto ouvir justificações, análises e opiniões de supostos especialistas, impantes dos seus dotes  de patologistas aplicados ao desgraçado cadáver das esperanças Democratas, já tenho a estranha e incongruente sensação de que todos os males do Mundo advêm, advirão e se resumem a esta vitória supreendente (ou nem tanto) do inverosímil candidato Republicano.

   No entretanto os males internos, os males da Nação são, com evidente vantagem para alguns, relegados para um distante plano na linha de visão dos cidadãos portugueses.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A prestidigitação dos números




   
   O Mundo de uns é um Universo de prestidigitadores matemáticos que nos castigam com um bombardeamento constante de percentagens, de valores absolutos, relativos, comparações com períodos homólogos, crescimentos acumulados, reduções efectivas em relação a realidades inexistentes tecidas com o fio diáfono do imortal conto infantil da nossa infância. 

    Mau grado a torpez evidente dos argumentos, eles conseguem arrastar consigo legiões de crentes inabaláveis convertidos em defensores de verdades dogmáticas assentes na fragilidade etérea de mil frases artificiosas, nem verdades, nem mentiras.
    
   E com esta ferramenta vil se molda uma opinião pública, acéfala, comatosa, tornada ordinária pela falta de vontade de pensar instilada pela comodidade e facilidade sórdida de mil ideias mastigadas, vulgarizadas, propaladas até à exaustão, prontas a consumir, mas que nos lábios de mil oráculos, duvidosos mas admirados, adquirem matizes de verdade e solidez  que lhes permite transmutarem-se numa perniciosa e capciosa forma de destruição da mais alta liberdade do pensamento individual.

domingo, 16 de março de 2014

O manifesto dos 70

 
   Finalmente consegui reservar algum tempo para ler o texto que tanta tinta tem feito correr nos últimos tempos e devo dizer que, ao contrário do que foi apregoado em muitos orgãos de comunicação social, quiçá por força do meu desconhecimento sobre o pantanal actual da vida política e financeira deste pobre país (em todos os sentidos), não consegui discernir nele nada que me fizesse desconfiar de interesses próprios escondidos, ou de utopias e desejos irrealizáveis à luz do que deve constar no núcleo de princípios dum projecto europeu capaz de preservar os interesses do Velho Continente entalado entre interesses adversos que residem quer a Ocidente quer a Oriente da Europa, esses sim, verdadeiras ameaças à sobrevivência das nações que constituem a União Europeia.

   Poderá haver quem concorde, poderá haver quem discorde, mas que cada um decida por si apenas depois de ler primeiro o texto em causa e depois os argumentos bem fundamentados quer a favor quer contra o conteúdo do Manifesto, mesmo que tal implique um esforço para não nos deixarmos confinar à facilidade cómoda de opiniões e dizeres semi-digeridos com que cada vez mais as máquinas de propaganda partidárias (e não só) nos alimentam a obesidade gordurosa da inteligência. Fuja-se, acima de tudo, dos muitos textos que encontrei (custa-me dizer que uma grande maioria dos que encontrei em orgãos de comunicação social ditos especializados) onde mais do que analisar e se possível desmontar os argumentos apresentados, todo o discurso produzido se limita a um vilipendiar impune dos autores do texto e do seu conteúdo argumentativo classificando-os redutora e dogmaticamente de irrealizáveis e utópicos e ao denegrir feroz (e estou em crer que totalmente impune) da integridade moral dos seus signatários.
 
  Por mim apenas encontrei argumentos que me parecerem eivados daquele bom-senso típico das donas-de-casa de outrora, adquirido pela experiência e pela formação, hoje em dia tão mal vista, em coisas similares às velhas aulas de Economia Caseira que acredito que, ao contrário do que muitos pseudo defensores da igualdade entre géneros apregoam, muito contribuiu para a melhoria das prosperidades familiares nas décadas de 50 e 60 do século XX. Quem sabe se, num verdadeiro exercício igualitário, essas aulas jamais tivessem sido eliminadas mas antes estendidas ao alunos do sexo masculino, não teríamos sido poupados a muitos dos descalabros económicos e sociais das décadas que se seguiram ?




terça-feira, 4 de março de 2014

O voto

      O voto democrático é como o voto do casamento!

      Ao votarmos estamos a dizer a outra pessoa que acreditamos nela, que confiamos na sua honestidade, na sinceridade das intenções enunciadas e no seu empenho em cumprir com o que prometeu sem olhar às dificuldades que isso acarrete ou, caso venha a reconhecer que se enganou - seja por imaturidade, impreparação, ou qualquer outra razão que queira alegar - e que com esse erro nos induziu na expectativa de algo que não conseguirá concretizar, nos deixar a difícil liberdade de exercer o direito último, extremo e absoluto de decidirmos se queremos prosseguir com um silogismo cujas premissas e consequente conclusão estão, logo à partida, comprometidos.

       Tal como no casamento, quando votamos, mesmo que em branco, estamos a dizer que acreditamos no sacramento de que ele é expressão, a conferir-lhe legitimidade, a comprometer-nos a submeter os nossos interesses individuais e liberdade de escolha ao superior interesse comum e a declarar a nossa crença em que tal acto de abnegação será gerido com o cuidado e ponderação a que a nossa prova de confiança obriga a outra parte.

       Deveria ser assim! Por muito utópico que tal pareça ser a alguns ou a muitos tem que ser assim! E assim não sendo mais vale não assumir tal compromisso ao invés de darmos um débil “sim” em cuja veracidade e honestidade nem nós próprios acreditamos. E se é certo de que nos moldes político e sociais a honestidade desta negativa pode conduzir a uma relação ilícita e ditatorial imposta pela parte mais forte que, escusado será dizer, raras vezes reside no lado das massas anónimas, há que ponderar onde reside a maior virtude: se num ser humano que voluntariamente cede a sua liberdade por medo e receio de que doutra forma lha retirem através de actos violentos e impróprios duma sociedade civilizada, ou se reside antes no ser humano que sem fraquezas de espírito combate pelos princípios em que acredita e em consequência se vê reduzido a uma escravatura forçada. Ao primeiro nenhum direito resta, ao segundo resta, pelo menos, o direito perene da revolta, da não aceitação da situação a que foi reduzido pela força.

       Num filme considerado como uma obra menor na sua excelente carreira, a personagem interpretada por Al Pacino defende um jovem que se recusava a ceder os seus princípios através da denúncia de colegas faltosos, ainda que lhe propusessem fazê-lo a troco de enormes benesses. E para sua defesa, argumentava o ex-militar interpretado pelo famoso actor,  que ao longo da sua vida tinha chegado muitas vezes a encruzilhadas e que, em todas essas situações, sempre tinha sabido qual era o caminho certo e qual era o caminho errado e, mau grado tal discernimento e ao contrário do que fazia aquele jovem, sempre tinha escolhido o caminho mais fácil ao invés de escolher o mais correcto.

       Devemos todos decidir que caminho vamos escolher: se vamos continuar a seguir o caminho fácil de fingirmos que acreditamos num sacramento democrático, mesmo sabendo que vai ser desrespeitado, ou se devemos ter a força de superar os nossos maiores receios e medos recusando-nos a conceder legitimidade a outras pessoas que não aquelas que nos consigam suscitar a crença sincera e confiante na sua honestidade.
  

       Dentro de alguns dias vamos ter, de novo, eleições europeias. Todos nós temos por isso ainda pelo menos alguns dias para pensar em tudo isto, para decidirmos se vamos consagrar e legitimar a hipocrisia de tal cerimónia com a nossa presença, ainda que na qualidade de simples e relutantes convidados, ou se, pelo contrário e não obstante a insignificância da nossa recusa individual (até porque bastam três votos válidos em dois partidos para que um deles possa, nos termos idiossincráticos da nossa democracia, poder declarar uma vitória estrondosa) vamos recusar o nosso assentimento tácito a um voto em que não acreditamos na honestidade das intenções duma das partes, e fazê-lo sem nunca perder de vista a ideia básica de que o nosso dever é aquele a uma consciência impoluta nos obriga e não aquele que é ditado mais pelos interesses do que pelas consciências e ditames alheios.

domingo, 27 de outubro de 2013

Parlamento por quotas

Perorei, há alguns dias atrás, contra a chamada "disciplina de voto", apelidando-a de ferramenta ditatorial inventada pela nossa pseudodemocracia como mordaça da consciência individual dos deputados e redutora do seu livre-arbítrio a uma execução cega das ordens das respectivas oligarquias partidárias.

            Pelo vistos, considerando haver o risco de alguém discordar de mim, e porventura por receio do dano que isso pudesse à minha reputação, fez-me o Conselho Nacional de Jurisdição do CDS-PP o favor de saltar a terreiro para campear a meu favor, aplicando, a título de exemplo, uma pena de suspensão de cinco meses ao senhor Deputado Rui Barreto, pela ousadia e temeridade demonstradas ao se atrever a votar contra o Orçamento de Estado de 2014, contrariando assim de forma chocante as ordens dos donos da sua bancada partidária.

            Por outro lado, como cada vez mais estas coisas da aparência nos enganam e iludem e suspeitoso como estou de que a minha humílima opinião não será assim tão importante aos olhos de outrem, decidi, ao ler o artigo sobre este assunto num jornal diário, rever a clarividência da minha posição, sem, claro está, deixar de salvaguardar a eventual pureza das intenções a meu favor por parte do CDS-PP merecedoras, nesse caso, da minha mais profunda gratidão!

            E de tal reflexão – para mim de grande valor por duplamente reflexiva dado reflectir sobre reflexão anterior – germinou-me na mente a ideia de que, afinal de contas, poderei estar errado, direi mesmo dolorosamente errado e de que a tal disciplina de voto, desde que alargada que seja a sua aplicação de forma que mais à frente explanarei, poderá não ser coisa assim tão ruim, sendo até o motor duma potencial redução drástica de custos para a Nação.

            Aceite-se à partida - dando de graça, se tal for necessário, tratarmos aqui duma redução ao absurdo - a ideia de tornar a disciplina de voto de aplicação universal e obrigatória por parte de todos os partidos das bancadas parlamentares.

Nestas circunstâncias até mesmo o acto da expressão da opinião de cada deputado nas bancadas do parlamento se tornaria, na prática, uma coisa fútil e desnecessária, já que a mesma estaria à partida condicionada pela do presidente da respectiva bancada parlamentar.  Tudo o que pudesse dizer, se reduziria, afinal de contas, a uma mera repetição da cartilha que lhe fosse imposta. Assim a sua presença física nas bancadas do  Parlamento seria de todo desnecessária, bastando-lhe passar procuração de voto ao seu líder de banca, convertendo-o desta forma em honesto representante da cúpula partidária!

Se quisermos ser ainda mais audazes e inovadores poderemos mesmo ir mais longe e questionar a necessidade da existência de deputados pois, a serem as coisas tal como aqui apresentadas, obter-se-ia o mesmo efeito constituindo o Parlamento numa verdadeira Sociedade por Quotas, onde a participação de cada partido seria ditada pelos resultados dos actos eleitorais convocados para esse efeito.

Imaginem-se as vantagens!

Por um lado não me parece que para a Democracia que temos resultasse daqui dano de vulto, já que mudaria apenas no facto de haver um só portador do voto colectivo por cada por partido, ao invés do desperdício que constituem os actuais duzentos e trinta portadores individuais cujos votos e opiniões seriam, nas condições aqui enunciadas, nada mais do que a repetição fotocopiada das respectivas directrizes partidárias. Imagine-se só a agilização dos processos legislativos daqui decorrentes: não haveria Decreto-lei, Proposta e demais coisa quejanda que não deixasse de ganhar solução rápida, ágil e expedita por falta do incómodo freio da obrigatoriedade de ouvir tanto parecer e opinião cuja utilidade parece resumir-se afinal a mera formalidade legal ou administrativa. 
           
            Por outro lado a redução de custos não poderia ser menosprezada.
           
Começaria desde logo nos custos de manutenção e limpeza do palácio de S. Bento, cuja utilização se tornaria desde logo desnecessária, bastando para o debate e funcionamento Parlamentares uma boa sala de reuniões, capaz de albergar uma a duas dúzias de participantes, entre Administradores Partidários,  presidente do Conselho de Administração, perdão, da Assembleia da República, respectivos Vices, Vogais e Secretários.

É igualmente fácil entrever a redução dos custos com equipamento informático, já que deixaria de ser necessário fornecer, manter e actualizar mais de duas centenas e meia de computadores pessoais, a maioria dos quais, desconfio eu, só justificáveis por prover ao tédio dos actuais senhores Deputados, reduzido que está o seu papel ao de espectadores da plateia do teatro político para aplauso mecânico e automático aos “Tenho dito!” do respectivo líder. E sentindo-se a falta desse burburinho - que constitui, bem vistas as coisas, uma tradição parlamentar arreigada que cumpre preservar - haveria sempre a possibilidade de recorrer às gravações de sessões parlamentares antigas, bastando para a sua reprodução audível e credível uma boa aparelhagem de alta-fidelidade (de preferência um moderno hi-fi com wi-fi!). 

De seguida poderemos incluir no rol de economias as que resultariam da poupança para o Estado nos custos relativos às viaturas necessárias às deslocações dos elementos mais grados das bancadas Parlamentares, viaturas essas que, como fez um dia notar o presidente da bancada Socialista, não se podem reduzir na actualidade à ignomínia da vulgaridade dum qualquer utilitário citadino, havendo, muito pelo contrário, que recorrer à utilização de carros topo de gama sob pena de, em não o fazendo, deslustrar o estatuto dos senhores Deputados!

A imprensa também ficaria a ganhar pois, reduzido que fosse o número de actores políticos, deixaria de se sentir a necessidade de tantos repórteres, jornalistas, redactores e revisores, já que num único artigo se poderia de forma segura e absoluta, retratar as tendências políticas de cada partido, arredadas que estivessem da ribalta pública as incómodas desavenças, querelas e desacordos com que actualmente nos entretêm nos serões noticiosos televisivos. Na actual desgraça económica e financeira em que se encontra a nossa Imprensa haveria certamente muitos donos de grupos editoriais agradecidos! 

E o rol de poupanças é fácil de estender, ainda que, para não incorrer nos risco de maçar os leitores com a sua enumeração, eu o deixar, a partir daqui, ao cuidado do siso e imaginação de cada um.


Como se vê,  pelo que me parece, seriam só vantagens!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Disciplina de voto

                Mau grado a minha condição de mau católico não consigo deixar de estabelecer um forte paralelismo forte entre a doutrina cristã e a democracia. Bem vistas as coisas ambas se baseiam no princípio simples do livre-arbítrio, na crença enraizada de que um Homem tem que ser responsável e responsabilizado pelas livres escolhas que faz.

                Ora o regime democrático impõe, por definição, a liberdade individual de escolha. E é precisamente nesta que radica o seu enorme potencial, nessa crença simples e porventura ingénua de que existirão sempre mais homens bons capazes de decidir em prol do bem comum do que aqueles cujo fito maior seja decidir, pelo contrário, em prol do que lhe seja mais proveitoso, garantindo-se pela simples força dos números de que a vontade dos primeiros se sobreponha sempre à dos últimos.


                Ora nada há nada mais contrário a este princípio do que a chamada “disciplina de voto”, que retira ao indivíduo o seu livre-arbítrio condicionando o seu voto à vontade da oligarquia do partido em que milite. Assim o que deveria a vontade expressa de muitos fica, logo à partida, condicionada pela vontade expressa e as mais das vezes obscura duns poucos. E isto, para mim, é a definição de ditadura, os verdadeiros antípodas do regime em que nos dizem vivermos.