Perorei,
há alguns dias atrás, contra a chamada "disciplina de voto",
apelidando-a de ferramenta ditatorial inventada pela nossa pseudodemocracia
como mordaça da consciência individual dos deputados e redutora do seu
livre-arbítrio a uma execução cega das ordens das respectivas oligarquias
partidárias.
Pelo vistos, considerando haver o risco
de alguém discordar de mim, e porventura por receio do dano que isso pudesse à
minha reputação, fez-me o Conselho Nacional de
Jurisdição do CDS-PP o favor de saltar a terreiro para campear a meu favor,
aplicando, a título de exemplo, uma pena de suspensão de cinco meses ao senhor
Deputado Rui Barreto, pela ousadia e temeridade demonstradas ao se atrever
a votar contra o Orçamento de Estado de 2014, contrariando assim de forma
chocante as ordens dos donos da sua bancada partidária.
Por outro lado, como cada vez mais
estas coisas da aparência nos enganam e iludem e suspeitoso como estou de que a
minha humílima opinião não será assim tão importante aos olhos de outrem,
decidi, ao ler o artigo sobre este assunto num jornal diário, rever a clarividência
da minha posição, sem, claro está, deixar de salvaguardar a eventual pureza das
intenções a meu favor por parte do CDS-PP merecedoras, nesse caso, da minha
mais profunda gratidão!
E de tal reflexão – para mim de
grande valor por duplamente reflexiva dado reflectir sobre reflexão anterior –
germinou-me na mente a ideia de que, afinal de contas, poderei estar errado, direi
mesmo dolorosamente errado e de que a tal disciplina de voto, desde que
alargada que seja a sua aplicação de forma que mais à frente explanarei, poderá
não ser coisa assim tão ruim, sendo até o motor duma potencial redução drástica
de custos para a Nação.
Aceite-se à partida - dando de graça,
se tal for necessário, tratarmos aqui duma redução ao absurdo - a ideia de
tornar a disciplina de voto de aplicação universal e obrigatória por parte de
todos os partidos das bancadas parlamentares.
Nestas circunstâncias até mesmo o acto da expressão da opinião
de cada deputado nas bancadas do parlamento se tornaria, na prática, uma coisa
fútil e desnecessária, já que a mesma estaria à partida condicionada pela do
presidente da respectiva bancada parlamentar. Tudo o que pudesse dizer, se reduziria, afinal
de contas, a uma mera repetição da cartilha que lhe fosse imposta. Assim a sua
presença física nas bancadas do
Parlamento seria de todo desnecessária, bastando-lhe passar procuração
de voto ao seu líder de banca, convertendo-o desta forma em honesto representante da cúpula partidária!
Se quisermos ser ainda mais audazes e inovadores poderemos
mesmo ir mais longe e questionar a necessidade da existência de deputados pois,
a serem as coisas tal como aqui apresentadas, obter-se-ia o mesmo efeito constituindo
o Parlamento numa verdadeira Sociedade por Quotas, onde a participação de cada
partido seria ditada pelos resultados dos actos eleitorais convocados para esse
efeito.
Imaginem-se as vantagens!
Por um lado não me parece que para a Democracia que temos resultasse daqui dano de vulto, já que mudaria apenas no facto de
haver um só portador do voto colectivo por cada por partido, ao invés do
desperdício que constituem os actuais duzentos e trinta portadores individuais cujos
votos e opiniões seriam, nas condições aqui enunciadas, nada mais do que a
repetição fotocopiada das respectivas directrizes partidárias. Imagine-se só a agilização dos processos legislativos daqui decorrentes: não haveria Decreto-lei, Proposta e demais coisa quejanda que não deixasse de ganhar solução rápida, ágil e expedita por falta do incómodo freio da obrigatoriedade de ouvir tanto parecer e opinião cuja utilidade parece resumir-se afinal a mera formalidade legal ou administrativa.
Por outro lado a redução de custos
não poderia ser menosprezada.
Começaria desde logo nos custos de manutenção e limpeza do
palácio de S. Bento, cuja utilização se tornaria desde logo desnecessária,
bastando para o debate e funcionamento Parlamentares uma boa sala de reuniões, capaz
de albergar uma a duas dúzias de participantes, entre Administradores
Partidários, presidente do Conselho de
Administração, perdão, da Assembleia da República, respectivos Vices, Vogais e Secretários.
É igualmente fácil entrever a redução dos custos com
equipamento informático, já que deixaria de ser necessário fornecer, manter e
actualizar mais de duas centenas e meia de computadores pessoais, a maioria dos
quais, desconfio eu, só justificáveis por prover ao tédio dos actuais senhores
Deputados, reduzido que está o seu papel ao de espectadores da plateia do
teatro político para aplauso mecânico e automático aos “Tenho dito!” do respectivo líder. E sentindo-se a falta desse burburinho - que constitui, bem vistas as coisas, uma tradição parlamentar arreigada que cumpre preservar - haveria sempre a possibilidade de recorrer às gravações de sessões parlamentares antigas, bastando para a sua reprodução audível e credível uma boa aparelhagem de alta-fidelidade (de preferência um moderno hi-fi com wi-fi!).
De seguida poderemos incluir no rol de economias as que
resultariam da poupança para o Estado nos custos relativos às viaturas
necessárias às deslocações dos elementos mais grados das bancadas
Parlamentares, viaturas essas que, como fez um dia notar o presidente da
bancada Socialista, não se podem reduzir na actualidade à ignomínia da vulgaridade dum
qualquer utilitário citadino, havendo, muito pelo contrário, que recorrer à
utilização de carros topo de gama sob pena de, em não o fazendo, deslustrar o
estatuto dos senhores Deputados!
A imprensa também ficaria a ganhar pois, reduzido que fosse o
número de actores políticos, deixaria de se sentir a necessidade de tantos repórteres,
jornalistas, redactores e revisores, já que num único artigo se poderia de
forma segura e absoluta, retratar as tendências políticas de cada partido,
arredadas que estivessem da ribalta pública as incómodas desavenças, querelas
e desacordos com que actualmente nos entretêm nos serões noticiosos
televisivos. Na actual desgraça económica e financeira em que se encontra a nossa Imprensa haveria certamente muitos donos de grupos editoriais agradecidos!
E o rol de poupanças é fácil de estender, ainda que, para não
incorrer nos risco de maçar os leitores com a sua enumeração, eu o deixar, a
partir daqui, ao cuidado do siso e imaginação de cada um.
Como se vê, pelo
que me parece, seriam só vantagens!