O voto democrático é como o voto do
casamento!
Ao
votarmos estamos a dizer a outra pessoa que acreditamos nela, que confiamos na
sua honestidade, na sinceridade das intenções enunciadas e no seu empenho em
cumprir com o que prometeu sem olhar às dificuldades que isso acarrete ou, caso
venha a reconhecer que se enganou - seja por imaturidade, impreparação, ou
qualquer outra razão que queira alegar - e que com esse erro nos induziu na
expectativa de algo que não conseguirá concretizar, nos deixar a difícil
liberdade de exercer o direito último, extremo e absoluto de decidirmos se
queremos prosseguir com um silogismo cujas premissas e consequente conclusão
estão, logo à partida, comprometidos.
Tal como no casamento, quando votamos, mesmo que em branco, estamos a
dizer que acreditamos no sacramento de que ele é expressão, a conferir-lhe
legitimidade, a comprometer-nos a submeter os nossos interesses individuais e
liberdade de escolha ao superior interesse comum e a declarar a nossa crença em
que tal acto de abnegação será gerido com o cuidado e ponderação a que a nossa
prova de confiança obriga a outra parte.
Deveria ser assim! Por muito utópico que tal pareça ser a alguns ou a
muitos tem que ser assim! E assim não sendo mais vale não assumir tal
compromisso ao invés de darmos um débil “sim” em cuja veracidade e honestidade
nem nós próprios acreditamos. E se é certo de que nos moldes político e sociais
a honestidade desta negativa pode conduzir a uma relação ilícita e ditatorial
imposta pela parte mais forte que, escusado será dizer, raras vezes reside no
lado das massas anónimas, há que ponderar onde reside a maior virtude: se num
ser humano que voluntariamente cede a sua liberdade por medo e receio de que
doutra forma lha retirem através de actos violentos e impróprios duma sociedade
civilizada, ou se reside antes no ser humano que sem fraquezas de espírito
combate pelos princípios em que acredita e em consequência se vê reduzido a uma
escravatura forçada. Ao primeiro nenhum direito resta, ao segundo resta, pelo
menos, o direito perene da revolta, da não aceitação da situação a que foi
reduzido pela força.
Num filme considerado como uma obra menor na sua excelente carreira, a
personagem interpretada por Al Pacino defende um jovem que se recusava a ceder
os seus princípios através da denúncia de colegas faltosos, ainda que lhe propusessem
fazê-lo a troco de enormes benesses. E para sua defesa, argumentava o
ex-militar interpretado pelo famoso actor, que ao longo da sua vida tinha
chegado muitas vezes a encruzilhadas e que, em todas essas situações, sempre
tinha sabido qual era o caminho certo e qual era o caminho errado e, mau grado
tal discernimento e ao contrário do que fazia aquele jovem, sempre tinha
escolhido o caminho mais fácil ao invés de escolher o mais correcto.
Devemos todos decidir que caminho vamos escolher: se vamos continuar a
seguir o caminho fácil de fingirmos que acreditamos num sacramento democrático,
mesmo sabendo que vai ser desrespeitado, ou se devemos ter a força de superar
os nossos maiores receios e medos recusando-nos a conceder legitimidade a
outras pessoas que não aquelas que nos consigam suscitar a crença sincera e
confiante na sua honestidade.
Dentro de alguns dias vamos ter, de novo, eleições europeias. Todos nós
temos por isso ainda pelo menos alguns dias para pensar em tudo isto, para
decidirmos se vamos consagrar e legitimar a hipocrisia de tal cerimónia com a
nossa presença, ainda que na qualidade de simples e relutantes convidados, ou
se, pelo contrário e não obstante a insignificância da nossa recusa individual
(até porque bastam três votos válidos em dois partidos para que um deles possa,
nos termos idiossincráticos da nossa democracia, poder declarar uma vitória
estrondosa) vamos recusar o nosso assentimento tácito a um voto em que não
acreditamos na honestidade das intenções duma das partes, e fazê-lo sem nunca
perder de vista a ideia básica de que o nosso dever é aquele a uma consciência
impoluta nos obriga e não aquele que é ditado mais pelos interesses do que
pelas consciências e ditames alheios.
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