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terça-feira, 4 de março de 2014

O voto

      O voto democrático é como o voto do casamento!

      Ao votarmos estamos a dizer a outra pessoa que acreditamos nela, que confiamos na sua honestidade, na sinceridade das intenções enunciadas e no seu empenho em cumprir com o que prometeu sem olhar às dificuldades que isso acarrete ou, caso venha a reconhecer que se enganou - seja por imaturidade, impreparação, ou qualquer outra razão que queira alegar - e que com esse erro nos induziu na expectativa de algo que não conseguirá concretizar, nos deixar a difícil liberdade de exercer o direito último, extremo e absoluto de decidirmos se queremos prosseguir com um silogismo cujas premissas e consequente conclusão estão, logo à partida, comprometidos.

       Tal como no casamento, quando votamos, mesmo que em branco, estamos a dizer que acreditamos no sacramento de que ele é expressão, a conferir-lhe legitimidade, a comprometer-nos a submeter os nossos interesses individuais e liberdade de escolha ao superior interesse comum e a declarar a nossa crença em que tal acto de abnegação será gerido com o cuidado e ponderação a que a nossa prova de confiança obriga a outra parte.

       Deveria ser assim! Por muito utópico que tal pareça ser a alguns ou a muitos tem que ser assim! E assim não sendo mais vale não assumir tal compromisso ao invés de darmos um débil “sim” em cuja veracidade e honestidade nem nós próprios acreditamos. E se é certo de que nos moldes político e sociais a honestidade desta negativa pode conduzir a uma relação ilícita e ditatorial imposta pela parte mais forte que, escusado será dizer, raras vezes reside no lado das massas anónimas, há que ponderar onde reside a maior virtude: se num ser humano que voluntariamente cede a sua liberdade por medo e receio de que doutra forma lha retirem através de actos violentos e impróprios duma sociedade civilizada, ou se reside antes no ser humano que sem fraquezas de espírito combate pelos princípios em que acredita e em consequência se vê reduzido a uma escravatura forçada. Ao primeiro nenhum direito resta, ao segundo resta, pelo menos, o direito perene da revolta, da não aceitação da situação a que foi reduzido pela força.

       Num filme considerado como uma obra menor na sua excelente carreira, a personagem interpretada por Al Pacino defende um jovem que se recusava a ceder os seus princípios através da denúncia de colegas faltosos, ainda que lhe propusessem fazê-lo a troco de enormes benesses. E para sua defesa, argumentava o ex-militar interpretado pelo famoso actor,  que ao longo da sua vida tinha chegado muitas vezes a encruzilhadas e que, em todas essas situações, sempre tinha sabido qual era o caminho certo e qual era o caminho errado e, mau grado tal discernimento e ao contrário do que fazia aquele jovem, sempre tinha escolhido o caminho mais fácil ao invés de escolher o mais correcto.

       Devemos todos decidir que caminho vamos escolher: se vamos continuar a seguir o caminho fácil de fingirmos que acreditamos num sacramento democrático, mesmo sabendo que vai ser desrespeitado, ou se devemos ter a força de superar os nossos maiores receios e medos recusando-nos a conceder legitimidade a outras pessoas que não aquelas que nos consigam suscitar a crença sincera e confiante na sua honestidade.
  

       Dentro de alguns dias vamos ter, de novo, eleições europeias. Todos nós temos por isso ainda pelo menos alguns dias para pensar em tudo isto, para decidirmos se vamos consagrar e legitimar a hipocrisia de tal cerimónia com a nossa presença, ainda que na qualidade de simples e relutantes convidados, ou se, pelo contrário e não obstante a insignificância da nossa recusa individual (até porque bastam três votos válidos em dois partidos para que um deles possa, nos termos idiossincráticos da nossa democracia, poder declarar uma vitória estrondosa) vamos recusar o nosso assentimento tácito a um voto em que não acreditamos na honestidade das intenções duma das partes, e fazê-lo sem nunca perder de vista a ideia básica de que o nosso dever é aquele a uma consciência impoluta nos obriga e não aquele que é ditado mais pelos interesses do que pelas consciências e ditames alheios.

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