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domingo, 20 de outubro de 2013

A nossa selva


Portugal está a converter-se numa selva onde a classe média e baixa, aquilo que se sói designar por “cidadãos comuns”, se está a transformar num enorme rebanho de gnus onde os predadores procuram diariamente a presa que os há de, mais que sustentar, engordar a cada dia que passa.
           
            E se a teoria da economia liberal defende que estas bestas ferozes se auto-regulam através da competição entre si, criando deste modo algumas oportunidades de sobrevivência para as presas, a realidade mostra-se completamente diferente. Todos os predadores desta selva imensa se puseram de acordo dividindo, de forma tão harmoniosa quanto secreta, entre si o território de caça onde são reis e senhores, onde se ditam ou ignoram as leis segundo as suas próprias conveniências já não ditadas pelas simplicidade frugal das suas necessidade, mas antes pelos mais delirantes desejos e sonhos que lhes aprouve ter.


Para as grandes empresas e grupos financeiros que nos predam não há considerações morais ou éticas. O valor do lucro e os direitos de propriedade, sejam eles justificados ou não, são os únicos parâmetros, as únicas guias que tudo regem e que tudo justificam. O único fito é obter o máximo possível no mínimo tempo possível, possuir hoje tanto quanto se possa possuir, sem olhar aos danos sociais e económicos que isso possa causar. A oportunidade do ganho fácil impera!


E desta forma assistimos todos impotentes ao lento definhar da manda que somos todos nós, ao diminuir do seu número, vigor e capacidade de sobrevivência, perante a avidez cega dos nossos algozes que se recusam a aceitar que a sua própria sobrevivência depende da sobrevivência das suas presas.  


Esquecem-se de no chão salgado com as lágrimas e o suor das suas vítimas, nada cresce, nada se renova. Esgotam-se ao esgotarem-nos, no embalo alucinatório da indiferença e desprezo pelo dia de amanhã. Para este tipo de animais a satisfação imediata, crescente e momentânea dos mais delirantes desejos é uma necessidade constante e corrosiva. O suficiente é inexistente, só o tudo infinito satisfaz e sacia ainda que esse limite seja por definição inalcançável e intangível.

Ao invés comportam-se como se o Universo pudesse estar perpetuamente cheio de novas manadas e novos territórios para serem explorados quando os seus actuais terrenos de caça inevitavelmente se esgotarem. Todos os dias ultrapassam, com uma indiferença chocante,  todos os limites das necessidades de sobrevivência e auto-preservação, numa procura perpétua de mais despojos, de mais carcaças, na mira constante de ganhos que acreditam poderem ser eternamente crescentes.

            E é pois nesta selva civilizada, onde a ganância se senta no trono, que estamos todos a tentar aprender a sobreviver ou, pelo menos, numa procura constante da melhor forma de conseguirmos prolongar a nossa agonia um dia de cada vez.

Duma forma consciente ou não, ainda que seja no mais fundo do nosso âmago, todos sabemos isto. E a escolha que temos que fazer é tão simplesmente por quanto tempo mais poderemos continuar a ignorar este sentir, a fingir acreditar nos embalos doces das promessas dos que nos governam em benefício próprio e das feras bestais que os acoitam e protegem conquanto possam ser alavancas para o elevar dos seus interesses próprios, egoístas e loucos.

4 comentários:

  1. É pior que selva, Amigo Meu, nessa ainda havia reis, do Leão ao Tarzan! Naquele pântano em que vivemos já só vislumbro macacos (de imitação) e sanguessugas, sem desprimor para os símios e para os bicharocos que auxiliavam a Medicina de antanho.

    Abraço

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  2. Meu caro amigo: agradeço-te imenso as tuas palavras mas, em minha defesa, faço-te ver que soubeste da criação do blog poucos minutos depois dele ter sido criado. Foi um impulso a que não consegui resistir, o ceder à tentação de ter um sítio, ainda que esconso, onde possa depositar esta revolta surda que me mói e aplacar esta frustrante sensação de impotência de que tantos padecem. E depois, sabes, é preciso começar por algum lado. Parafraseando, algo livremente, Edmund Burke "Para que o mal triunfe basta que os homens bons nada façam".
    Este pretende ser o meu contributo, quiçá impotente e inútil, mas que creio devido.
    P.S. - Acabei de me aperceber da ironia de citar aqui Edmund Burke, mas o que é bem dito é bem dito e merece memória!

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  3. E bem precisamos nós de ter onde desabafar nestes dias sombrios...
    Ab
    Tiago

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  4. Ironia, por que razão?
    Se é certo que Ele vinha do Liberalismo Whig e apoiou o processo da Independência Americana, foi aceso crítico da versão continental de hediondez acrescida que rebentou em França, donde foi trasladada para cá e que querem à viva força ressuscitar. Logo, é um Mestre a que se deve estar atento, contra neo-jacobinismos centralizadores, a face mais terrorista dos laissez-faire, laissez passer egoístas e indiferentes.

    Abraço

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