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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Balas e papeis

                Ele há coisas que, com toda a sinceridade, são mesmo de bradar aos céus! O último exemplo foi o do senhor inspector da Polícia Judiciária que nos entrou pela casa adentro pela mão dos telejornais de ontem, a queixar-se de falta de condições de trabalho que, segundo ele, irão campear no próximo ano na Polícia Judiciária por causa dos cortes de 82% nas verbas para material de escritório e de 100% nas verbas para munições previstas no Orçamento de Estado de 2014.

                Isto, digo-o eu de cenho franzido e rosto crispado de fúria, é indigno da tradição nacional que, desde há muito, tem feito com que os portugueses sejam internacionalmente reconhecidos como os campeões mundiais do desenrascanço! Nunca nenhum Luso, macho, fêmea ou outro, digno de suas raízes, alguma vez ficou atrapalhado por coisa de tão pequena monta, pelo que muito me custa ver-me aqui na dolorosa obrigação de apresentar ao referido senhor Inspector as alternativas que, com um mínimo de brio profissional, patriotismo e raciocínio, lhe deveriam ter surgido de imediato.

             Senão vejamos!
            
            Comecemos pela primeira verba: material de escritório.
Aqui a solução é coisa imediata e fácil. Tudo o que há a fazer é propor à senhora Ministra das Finanças uma troca das verbas a cortar: ao invés de se cortar 82% na verba de escritório proponha-se à digna senhora o corte de 100%, sim, isso mesmo, 100%  das verbas nas rúbricas destinadas ao WC. Note-se, antes de mais, que uma troca com valores percentuais tão vantajosos para a senhora Ministra não deixaria, com toda a certeza, de ser agrado do Governo que passaria a poder gabar-se justamente de cortes totais e simultâneos não numa, mas sim em duas, repito, duas rúbricas do Orçamento de Estado. E digam-me lá quantos países desta União Europeia se poderiam gabar de tal feito?

                E não se conclua daqui que o material de WC, principalmente o destinado aos cubículos privados dos quartos de banho, que desde já reconheço como de todo indispensáveis ao regular funcionamento de qualquer repartição Governamental, fique descurado. Não senhor! Muito pelo contrário!

A solução para tal problema (se é que problema lhe podemos chamar) é, bem vistas as coisas, duma tal cristalinidade, duma tal imediatez que é quase impossível que não seja divisada ao primeiro relance do pensamento sobre a questão:  para obstar a uma eventual falta do referido material – e digo eventual porque do que em seguida se apresenta facilmente decorre ser este um evento de probabilidade infinitesimal – bastará tão somente que os senhores inspectores e demais pessoal adstrito ao funcionamento da Polícia Judiciária, se socorram, ainda que com um mínimo de sentido crítico, dos processos que, por tradição das repartições  públicas portuguesas, não deixarão de se encontrarem prodigamente empilhados em qualquer secretária nas proximidades de todos os quartos de banho do edifício.

E desde já rogo que ninguém tenha a veleidade de pensar que de tal prática poderia alguma vez resultar dano grave ao funcionar regular e metódico da Justiça em Portugal. Bem pelo contrário!

Note o leitor paciente e atento a ressalva feita sobre a necessidade dum mínimo de sentido crítico na aplicação desta solução. É precisamente esta ressalva, qual âncora providencial em navio ao largo, que me permite argumentar que a questão só poderá decorrer a favor do Estado! Com efeito, desde que  os senhores Inpectores,  numa aplicação inflexível do referido princípio de sentido crítico, tenham o cuidado de se socorrerem exclusivamente das páginas processuais relativas às diligências moratórias dos senhores advogados em prol dum adiamento, sempre possível e esperançoso, da declaração de culpabilidade dos seus constituintes, (coisa que, como todos sabemos, é feita com tal empenho,  proficuidade e eficácia que mais amiúde do que seria desejável acaba em fatal prescrição processual)  estará, por esta forma, encontrada uma fonte quase inesgotável de papel A4, o qual, ainda que não sendo detentor das qualidades ideais para o fim em vista, não deixará, sem dúvida alguma, de se revelar capaz de desenrascar gente afoita nas aflições de que aqui tratamos.

Dir-me-ão agora que tal solução será contrária aos interesses da Justiça. Disparate! Senão repare-se: em se dando por falta da referida documentação por se lhe ter dado uso tão acertado, não haverá mais a fazer, para obviar a tão inócua falha,  do que pedir segunda via da mesma aos advogados dos réus, coisa que se por um lado colmatará a amputação, ainda que benigna, do processo em causa  por outro irá garantir a reposição do papel gasto às custas exclusivas da parte acusada ao invés de o ser às custas do Estado. Se, pelo contrário, não se der por falta da documentação reciclada de forma tão eficaz, daí não poderá decorrer nada mais do que benefícios para a Justiça, já que o processo, alijado por esta forma de carga tão incómoda e mal estivada, decorrerá sem dúvida com uma ligeireza e presteza inusitadas pelas bandas Lusas.

E ficando assim resolvido o problema do primeiro corte, passe-se à apresentação de solução para o segundo problema, que, atendendo à longura desta exposição, convém recordar, em prol dos leitores menos atentos ou mais cansados, consiste no corte total das verbas para munições. Como adiante veremos, é também coisa de solução tão simples e honrosa que admirará a muitos nunca ter sido pensada.

Dado a reconhecidamente difícil situação do País, a qual não deixará de ser sentida de igual forma pelas forças da Lei e pela bandidagem (as primeiras pelo acréscimo de trabalho imposto pelas segundas e pela carência bem evidente de meios para a ele se opor e as segundas por mor da frugalidade dos resultados obtidos em cada acção profissional desenvolvida), estou em crer que bastará apelar ao sentido patriótico e de honra destas duas forças para que, através dum acordo de cavalheiros, se auto limitem nas questões de armamento, dispondo-se de motu próprio, a recorrer a nada mais do que à tradicional fisga para resolução das questiúnculas profissionais entre ambas, as quais, em boa verdade, se revelam amiúde de todo irresolúveis mediante quaisquer outros meios que não os bélicos.

Por um lado a bandidagem, desde que impere o bom-senso, não poderá deixar de reconhecer que fica a ganhar, pois sendo senhora dum quadro de pessoal infinitamente mais extenso do que o da Polícia Judiciária, teria logo à partida a vantagem inegável da supremacia de poder de fogo (ainda ainda que sem pólvora ou coisa que o valha), o que nas artes de Marte, como se sabe, é coisa sempre boa e não negligenciável.

Por outro lado, que é como quem diz, pelo lado das forças da Ordem, a coisa também não andaria mal, pois bastaria lançar mão dos comprovados méritos da nobre força de sargentos instrutores do exército português - gente de grande e comprovada obra que foi capaz, em tempos não há muito idos, de travar guerras quase que exclusivamente com paus e pedras onde, em aflições idênticas, outras nações poderosas se tiveram que socorrer de artilharia, meios aéreos e marítimos e demais parafernália militar sem que, mau grado tão extensos recursos, lhes tenha daí advindo maior vantagem do que a que obtiveram as hostes Lusas – para converter em tempo útil os agentes da Judiciária, em atiradores de fisga exímios capazes de pela qualidade que não pela quantidade, anular a vantagem numérica dos opositores que tivessem a triste e infeliz ideia de lhe fazer frente em qualquer confronto armado (com fisgas, bem entendido, que estas nestas coisa de honra, não importa se em polícia ou em ladrão, não há como recuar).

Vantagens comuns a ambas as partes seriam não só as de carácter humano advenientes da inevitável redução dos danos físicos e materiais de qualquer escaramuça ou batalha, bem como as de cariz económico já que, proibido que fosse, pela força da palavra dada, o recurso à sofisticação das armas em carbono reforçado e elásticos montados em cadernais capazes de decuplicar a força muscular do atirador, toda a logística necessária poderia, com a maior das facilidades, ser adquirida em qualquer papelaria mediana do País no que respeita ao  agente impulsor do projéctil (designado por “elástico”  no falar comum das gentes) - coisa que, no que toca às forças da Lei, só vem ao encontro da acima referida vantagem na troca do corte nas verbas de papelaria pelo corte nas verbas do material de WC -  e através do sacrifício leve de alguns bons ramos de aveleira ou marmeleiro, coisas que, com um mínimo de felicidade, ainda é possível encontrar em muitos dos campos desertos deste nosso país.  Quanto às munições é fácil de ver que não seriam problema de monta, bastando, para as prover,  recorrer às pilhas de brita com que as empresas de construção, quase que diariamente, vão, de forma metódica, afincada e tenaz, congestionando as ruas deste nosso País ou aos muitos seixos que por aí andam nas ruas mais esconsas e escalavradas ou nos bucólicos caminhos rurais. Caso tais recurso falhassem dum todo, poder-se-ia ainda recorrer às pedras das muitas calçadas que por aí andam a serem constantemente levantadas, ainda que se tenha que reconhecer que, nesta última eventualidade,  haveria que fazer frente ao trabalho acrescido necessário para fragmentar os cubos de calcários e afeiçoar os pedaços resultantes em projécteis cuja dimensão e forma dessem a melhor garantia de usabilidade e eficácia.

E assim, por tudo aquilo que aqui fica dito, se demonstra à exaustão o despropósito e futilidade dos protestos do senhor Inspector mencionado no início deste texto, senhor que, como se viu,  fez triste figura por falta de recurso a engenho e imaginação por mister dos quais se conseguisse desenrascar de situação tão ordinária.


Tenho dito!

2 comentários:

  1. Ehehehehe. Mas se mo permites, sugiro ainda uma interpretação que revele como patriótico o ânimo cortante de SEXA a Sr.ª Ministra: trata-se de um estímulo a que a PJ aumente exponencialmente o número dos seus agentes infiltrados, caso em que ficariam resolvidos os problemas de material de grande parte dos seus quadros, com o recurso à abundância e prontidão dos meios que servem a alta criminalidade...

    Abração

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    1. Não me desculpo não ter pensado nisso! Indesculpável!

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